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Costa Carvalho

Comunicação e Medicina


Publicado a: 21 Abril 2015

PASSA PELO TACTO TODO O CONTACTO

Razão é que por todas as vias se acuda à conservação; mas como somos compostos de carne e sangue, obre de tal maneira o racional, que tenha sempre respeito ao sensitivo. Tão ásperos podem ser os remédios, que seja menos feia a morte, que a saúde. Que importa a mim sarar do remédio, se hei-de morrer do tormento?
Padre António Vieira (Sermão de Santo António).

O único perdão válido está em perdoar o imperdoável. Atrelo-me a este conceito de Jacques Derrida, no afoitar-me ao tema Comunicação e Medicina. Uma ousadia que só não é um verdadeiro disparate, por ter encontrado em San Juan de la Cruz o melhor dos intercessores: «Para atingires o ponto que tu desconheces de todo, deves tomar o caminho que tu de todo desconheces».
Contra os que não forem em santidades, mesmo se mourejadas e muito sofridas, como a do escritor místico, e contra os outros que, justa e indignadamente, também se apresentarem como juízes de despropositada intrusão em território alheio, aduzo à minha defesa esta sentença do berbere e liberto Terêncio: «Homo sum; nihil a me alienum puto». Como homem que sou, não posso, em boa verdade, ser indiferente a tudo quanto é humano. E humana é a comunicação, mágica e inquietante.

Já quando, terminada a aula, abandonava a sala, ouvi uma aluna dizer a um seu colega: «Lá fora, vou dar-te uma tanga, mas que tanga!». Na suposição de que eu fosse chamar-lhe a atenção para o uso de gíria, a aluna ensaiou uma desculpa em linguagem gestual. «Estudou latim?» - perguntei. Ela enfatizou o “não” com um esgar. «Pois olhe que, mesmo sem querer, quase latinou. É do supino (tactum) do verbo tango que vem a palavra tacto. E tango traduz, exactamente, a sua intenção: zombar, escarnecer, beliscar, tocar nos brios de alguém, gozar, mexer com a intimidade de outrem». Estou em crer que, depois de tão divertida (para mim, claro!) admonição, a aluna atirou a «tanga» às malvas, e com ela as minhas fumaças de latinista. E eu perdi a oportunidade de pôr a aluna a par do humor de Heine: «Os romanos, se os tivessem obrigado a aprender latim, decerto não teriam tempo de sobra para conquistar o mundo. Estes felizardos já no berço sabiam os nomina que fazem acusativo em im». Ou ter-se-á dado o caso de a aluna não ter querido chamar sobre ela o provérbio «de mula que faz him e de mulher que fala latim libera nos, Domine»? Nunca se sabe! Porque, nisto de comunicação humana, a simplicidade está na sua complexidade!

Falei do tacto; e do tacto, com ou sem toda a sua carga polissémica, estou em crer que não podem prescindir nem a Medicina nem a Comunicação. Uma e outra requerem vocação: a Medicina, para «não abusar de corpos de mulheres ou homens, livres ou escravos», como se lê no juramento de Hipócrates; a Comunicação, porque, diz o provérbio, as palavras fazem, muitas vezes, mais que as pancadas.
A definição corrente de comunicação, apegada ao étimo latino communicatio, é o acto de pôr ou ter em comum, de partilhar, de entrar em relações com alguém, de comerciar, e, também, em termos de Retórica, o apelo à atenção dos auditores. Escamoteadas vivem, contudo, outras significações que o vocábulo comporta, tais como: manchar, contaminar, sujar, infamar, denegrir.
Por sua vez, o também termo latino medicus não se refere somente àquele que cura, ao mágico, mas, de igual modo, ao digitus medicinalis, o anular, quarto dedo da mão. Curioso aonde nos pode levar o simbolismo do algarismo 4: aos quatro rios do Éden, aos quatro evangelistas, aos quatro pontos cardeais, às quatro estações, às quatro letras de Adão, aos quatro membros - ainda e quando, referindo-se a estes, Santo António possa dizer: «o penitente tem seis pés: os dois anteriores são o amor de Deus e do próximo; os dois centrais, a oração e a penitência; os dois posteriores, a paciência e a perseverança».

O NOSSO «MOINHO DE PALAVRAS»

O nosso «moinho de palavras» é fantástico. Rápido e eficaz, permite que um falante utilize, em média, 100 a 200 palavras por minuto, podendo atingir as 300, também por minuto, segundo as circunstâncias e os indivíduos; ou seja, 5 palavras por segundo. Quando não mais, se nos lembrarmos dos relatores radiofónicos desportivos. Bebemos e respiramos palavras, um bem gratuito que a água e o ar já deixaram de o ser, sem nos interessar saber se, a despeito da sua espontaneidade e da sua fluidez, elas encerram processos mentais complexos, nomeadamente quando as utilizamos para estabelecermos relações, para partilharmos emoções e sentimentos, para agirmos sobre outrem, para fortalecermos a nossa identidade ou a dos outros.
A sentença «cada macaco no seu galho» não é tão galhofeira quanto possa parecer. Tomemo-la antes como prudente, para nos apercebermos de como, e bem, ela consubstancia a ideia de que o nosso lugar (função, cargo) define as relações e estrutura a comunicação. No que os psicolinguistas vêem um «nexo de lugares», pode até haver uma relação preliminar ao contacto; por exemplo, no consultório médico, são consideradas normais a nudez e a palpação. Como diz Edmond Marc, «um grande número de relações sociais (professor/aluno, médico/doente, cliente/vendedor, pai/filho, patrão/empregado) são relações preestabelecidas, fixando, antecipadamente, a identidade social, os papéis e o estilo de comunicação dos protagonistas». 
Mas isso é intuitivo! - dir-se-á. Exactamente porque o é, cria dificuldades, põe um problema de conhecimento, levanta fortes resistências à análise, pois cada um de nós julga já saber tudo sobre a comunicação. Senão mais, até, do que, tantas vezes, não sabem aqueles que deveriam saber… 

O programa de actividades da Escola de Juízes incluía visitas a jornais.  Como qualquer leitor comum, os alunos conheciam a linguagem externa dos periódicos - o que “sai em letra de forma”. Em seu entender, era o quanto bastava para julgar crimes de liberdade de imprensa. Quando quiseram aprofundar o que fosse, realmente, a linguagem jornalística, obtiveram como resposta uma pergunta: «Linguagem jornalística ou linguagens jornalísticas? É que elas podem ser mistas, epidícticas, colectivas, descartáveis, autositárias, coalescentes, cronotrópicas…». Basta! Basta! E a visita de rotina, para cumprir programa, caiu no cérebro dos futuros juízes como marmelos crus em estômago ulcerado. Reconheceram que os seus conhecimentos sobre a matéria estavam a milhas da realidade diariamente vivida nos jornais.

Sistema estruturado de signos, no acto aqui aflorado a linguagem é uma maneira de falar própria de um grupo social, de um grupo profissional, de uma disciplina científica, como, por exemplo, a linguagem médica, a linguagem jurídica, a linguagem administrativa e a tal linguagem jornalística. Todavia, isso não explica nem justifica que nenhuma dessas linguagens se deixe arrastar para o abismo dum hermetismo afeiçoado ao jargão. «Nunca utilizarei uma palavra rebuscada - escreveu Oliver Wendell Holmes -, quando haja uma simples que cumpra a sua função. Sei que há professores que “praticam a ressecção das amígdalas”. Outros extirpam-nas; e o resultado é exactamente o mesmo». Para os estudiosos da comunicação, a excessiva frequência do jargão dos especialistas científicos é como a retórica política e a geringonça burocrática: áspera ao ouvido, difícil de entender e torpe. 
Na fase de transição do escudo para o euro, a CP afixou, nas carruagens dos comboios suburbanos, esta informação que é um exemplo da charadística geringonça burocrática:

Estimado Cliente: De acordo com a legislação em vigor de 1 de Janeiro a 28 de Fevereiro de 2002 deverá:
- Munir-se da quantia exacta sempre que deseje efectuar o pagamento em escudos.
- Caso não disponha da quantia certa ser-lhe-á entregue um vale em euro, sempre que não nos seja possível fornecer o troco nessa moeda.
- O valor do vale em euro poderá ser levantado em qualquer Ponto de Venda da USGP.

«O problema do jargão - diz Robert A. Day, autor de How to Write & Publish a Scientific Paper - é que se trata de uma linguagem especial, cujo significado só um grupo especializado de ‘iniciados’ conhece. A ciência deve ser universal e, por conseguinte, todo o trabalho científico deve ser escrito em linguagem universal». A diferença entre comunicação científica e vulgarização situa-se ao nível do público-alvo, dos conteúdos e das finalidades, da linguagem utilizada, da mediatização e da maneira de apresentar os conteúdos. Neste último ponto, a dissemelhança está em que o contrato de leitura proposto ao grande público é de um conteúdo diferente. Como diz Bernard Lazinet, «a entrada da investigação na era da comunicação tem por consequência fazer penetrar os médias de massa num universo de que, até aqui, tinha sabido, relativamente, proteger-se. A penetração da comunicação nas instituições científicas, pouco habituadas às técnicas de Relações Públicas e do Marketing, mas desejosas de se porem em visibilidade relativamente aos concorrentes, e de chamarem sobre elas o olhar de fundos públicos e privados, tem consequências imediatas sobre o seu funcionamento, assim como sobre as práticas dos investigadores».
Recomenda o SSC Booknews: «As palavras rebuscadas servem para nomear coisas pequenas. As coisas grandes têm nomes simples, como vida e morte, guerra e paz, ou alba, dia, noite, amor, lar. Aprenda a usar as palavras simples de uma maneira grande. É difícil fazê-lo; porém, dizem o que se pretende. Quando não souber de que está a falar, recorra a palavras rebuscadas: amiúde, enganam a gente simples».
Vejamos: dizer - está sempre certo; afirmar - sugere opinião, tomada de posição; declarar - é afirmar com mais alcance; informar - relatar factos; comentar - é opinar sobre factos; lembrar - é para facto passado e já conhecido; argumentar - tentar convencer; alegar - argumentar com a intenção de defesa; revelar - apresentar facto ignorado até ao momento; admitir - implica confissão ou concessão; garantir - é dar certeza absoluta; constatar - consignar por escrito. 
Isto se queremos utilizar as palavras com conta, peso e medida, porque, de como elas são mal contadas, pesadas e medidas, porque todas enfiadas no mesmo saco, temos maus exemplos diários, nos jornais, na televisão e na rádio.

COMUNICAR E COMO NICAR

Diariamente, as pessoas encontram a morte na estrada. Um eufemismo assim leva a pensar que as pessoas tiveram aquilo que procuravam. Outras vezes, esta ou aquela população sofre consequências mortais, por isto ou por aquilo. Onde é que a dura realidade da morte fica mais suavizada? E os pobres são simplesmente pobres ou «economicamente débeis»? O cego é cego ou «invisual» ou «invidente»? Por analogia, um surdo poderá ser chamado um «inaudiente»? Como disse George Eliot, romancista inglesa: «Bendito seja o que, não tendo nada para dizer, se abstém de no-lo demonstrar verbosamente».

A senhora…, de 84 anos, nunca tinha feito um exame clínico completo. Os filhos insistiram em que a mãe fosse ao médico, mesmo sabendo que ela jamais tivera uma doença. Após o exame, o geriatra disse: «Tudo parece estar em ordem, mas há outros exames a fazer. Volte para a semana e traga uma amostra». A senhora não sabe do que está a falar o médico. E este diz-lhe: «Preciso de uma amostra de urina». A senhora continua sem entender. O doutor tenta explicar: «Antes de vir, esvazie a bexiga num frasco». E a senhora, intrigada: «O quê?» O médico perde a paciência e quase grita: «Escute, minha senhora, mije dentro dum frasco!» A senhora fica vermelha, bate com a mala de mão na cabeça do médico e replica: «Cague você no seu chapéu!». E saiu apressadamente do consultório.

«Hoje em dia, o único meio de que disponho para ajudar aquele que sofre, é abordá-lo através da troca de palavras carregadas de sentido» - escreveu Édouard Zarifian, professor de psiquiatria e de psicologia médica, na Universidade de Caen (França).
A verificação, tão inesperada quanto elementar, de que o médico e o doente são duas pessoas humanas que utilizam entre elas uma linguagem, é por alguns apresentada como um progresso comunicacional destes últimos anos. Segundo a “descoberta”, a eficácia de técnicas de diagnóstico e de técnicas de terapêuticas, cada vez mais longas e complexas, passa pela existência de uma relação satisfatória entre o médico e o doente, sobretudo quando se trata de terapêuticas prolongadas num doente crónico. 
Em 1933, Gregório Marañón, escritor e professor da Faculdade de Medicina de Madrid, escreveu: «À medida que se aclara o mistério das enfermidades; à medida que os nossos medicamentos se afastam do empirismo primitivo e se convertem em métodos científicos e, às vezes, aproximadamente exactos, os médicos damo-nos conta de que há uma margem em redor de cada transtorno, inclusive do mais orgânico, que só se deixa atacar pela brecha ideal e misteriosa da sugestão; e que cada médico, embora sabendo as mesmas coisas e empregando as mesmas receitas que os demais, porta consigo uma quantidade específica de energia curativa de que ele mesmo se não dá conta, e da qual, em definitivo, depende a sua eficiência tanto como da sua experiência e da sua ilustração». (Raiz y Decoro de España).

Há quem deteste os transportes públicos, por ver neles parecenças com o que deverá ter sido a Arca de Noé. Pessoalmente, vejo no transporte público um terreno lavradio, onde a comunicação humana pega de estaca. Recentemente, numa das muitas viagens que faço entre o Porto e Aveiro, pus-me a anotar a conversa de duas passageiras. Falavam dos seus médicos de família: «O meu é boa pessoa, mas fala demais. Não tem jeitinho nenhum para os doentes. Ele lá tem as suas mazelas, os seus problemas, mas eu não estou para o aturar. Depois, não presta atenção ao que se lhe diz e receita sem dar ouvidos ao doente. Da última vez, bem lhe disse que já tinha feito duas endoscopias. Mas qual quê!? Deu-me uma porcaria que logo me saiu de jacto, do estômago, mal a tomei».

A comunicação é, as mais das vezes, equívoca. Somos limitados por uma língua na qual as palavras podem significar uma coisa para uns e algo de muito diferente para outros. Além disso, «a memória, a percepção e a linguagem são, também, condicionadas socialmente», como diz Bernard Lahire. Por sua vez, Birdwhistell, que insistia no aspecto integrado e integracional da comunicação, considerava ser uma ingenuidade «pensar que somente a língua apresenta uma função cognitiva e que as outras modalidades de sistemas semióticos estão meramente modificando a mensagem levada pela língua». 
Uma língua é um diassistema, um conjunto de sistemas linguísticos, no qual se inter-relacionam diversos sistemas e subsistemas. Como ensinam Celso Cunha e Lindley Cintra, uma língua apresenta, pelo menos, três tipos de diferenças internas, mais ou menos profundas: diferenças no espaço geográfico, ou variações diatópicas; diferenças entre as camadas culturais, ou variações diastráticas; diferenças entre os tipos de modalidade expressiva, ou variações diafásicas. E, por que não, também variações diacrónicas?

Uma jovem mãe foi atendida por um médico que, a meio da consulta, começou a tratar a senhora por tu. Chamado à atenção para o facto, o argumento do médico foi o de que tinha uma filha da mesma idade, à qual tratava por tu. «E como o trata a sua filha?», perguntou a senhora. «Por tu, também!», respondeu o médico. Por efeito da boa educação da jovem mãe, a consulta acabou logo ali.

Não menos recriminável é a tendência para adoptar o VOCÊ como forma de tratamento «igualitário». Por muito que se queira uma igualdade absoluta entre os seres humanos, convirá não esquecer a cultura própria. Nem as televisões, com os desmandos dos concursos, nem as telenovelas, exportando usos e costumes «di lá», mas não de cá, abalarão a conveniência do tratamento respeitoso e, sobretudo, a declinação da correcta identidade das pessoas. Na cultura portuguesa, o recomendado é tratar-se alguém pelo último sobrenome ou, preferentemente, pelo nome próprio e pelo último sobrenome. E não apenas por sr. José, sr. António, etc.. Reis e santos, muito bem; simples “mortais”, muito mal! Alguém trataria ou ousaria tratar o presidente da República pelo sr. Aníbal? E o primeiro-ministro por sr. Pedro? Reverenciamos a pessoa ou o cargo? À boa maneira renascentista, o Homem é a medida de todas as coisas. 
Se a todos nos é dada a presunção de inocência, mesmo quando indiciados, por que não beneficiar da presunção de decência do nosso nome, da sua dignidade, do respeito que lhe é devido? Será que nos hospitais, nos consultórios, somos obrigados a juntar a uma imposta perda de dignidade, a chocante perda da identidade?

Dêmos razão a Miguel de Unamuno: «Porque pode um indivíduo ter uma grande talento, o que se diz um grande talento, e ser um estúpido do sentimento e até um imbecil moral».
Comunicar não é, pois, como nicar. Há uma pletora de nuanças, nesta como em outras homofonias. Servir-se de incapacidades comunicativas, para fazer de quemquer que seja um pião das nicas, para despejar sobre não interessa quem o lixo de uma comunicação descuidada e impertinente, é imperdoável desrespeito, é uma falta de ética e um atentado à estética. Seja na comunicação oral ou na comunicação escrita. É que tão mal faz à saúde da língua uma silabada ou uma anfibologia, como ao organismo uma receita impróvida. 
«Mas tristezas aos centos erram entre os homens./ Cheia está a terra de desgraças, cheios os mares./ As doenças, umas de dia, outras de noite,/ visitam à vontade os homens, trazendo aos mortais/ o mal, em silêncio, pois Zeus prudente lhes retirou a voz». (Hesíodo, Trabalhos e Dias, 90-104). É tempo de restituir a palavra à doença, assim evitando os desígnios de Zeus.
Tudo exige de nós esforço e paciência; inclusive a comunicação. «Um ser humano não inventa o seu sistema de comunicação…ele já existe há gerações. O homem deve aprendê-lo, a fim de se tornar membro da sua sociedade». (Lee Smith). 
Quem vai de comboio de Aveiro para o Porto, pouco antes da estação de Avanca pode ler a seguinte inscrição, pintada a negro num muro branco: «Só os peixes mortos são levados na corrente». Nada mais simples e profundo. Como os peixes, vezes sem conto os homens morrem também pela boca. Que o digam Esopo e Sócrates!

Na controvérsia criada pela taxa de alcoolemia, foi à televisão uma «sumidade na matéria». O apresentador do telejornal, indeciso quanto ao modo correcto de pronunciar a palavra, procurou esclarecer-se: «É alcoolémia ou alcoolemia?» Resposta do entendido em álcool, que não na língua portuguesa: «Ainda não se chegou a acordo quanto a isso. Está bem, das duas maneiras».

Se o laureado apresentador tivesse sabido pôr-se nas suas tamancas, bem poderia ter contraposto: «Quer dizer, senhor doutor, que pode haver uma epidémia de leucémia provocada pela alcoolémia?» E por quê tabagismo, fazendo-se com tabage, francês, um substantivo espúrio? Será lícito falar-se em cavagismo, querendo-nos referir à governação do Prof. Cavaco Silva? E por quê o síndrome ou o sindroma, se o correcto é a síndrome, a síndroma? Menos francês e mais português na dieta!
Robert  A. Day, na obra acima citada, dá conta desta e de várias outras aberrações “clínicas”: «O primeiro parágrafo de um boletim de imprensa emitido pela American Lung Association (ALA) dizia: “Ao que parece, as mulheres estão a fumar mais, porém respiram menos’, declarou o Dr. Colin R. Woolf, professor do Departamento de Medicina da Universidade de Toronto. O catedrático apresentou provas de que as mulheres fumadoras têm probabilidades de padecer de anormalidades pulmonares e de diminuição funcional pulmonar durante a reunião anual da American Lung Association”. 
Embora a reunião da ALA se realizasse na encantadora cidade de Montreal, espero que as mulheres que fumam tenham ficado em casa.».

Não menos mimoso é o seguinte excerto da crónica de um mediático cirurgião, publicada no suplemento do Diário de Notícias de 12 de Junho de 1999, e aqui reproduzido respeitando a ortografia e a pontuação: 

«Os médicos têm de estar infelizmente preparados para transmitir todas as informações sobre as doenças dos seus doentes. […] Transmitir uma má notícia é sempre uma tarefa difícil que exige muita diplomacia. Sobretudo quando se trata de jovens saudáveis que de repente se vêm confrontados com um diagnóstico terrível. No começo da minha vida cirúrgica, já lá vão seguramente vinte anos, apareceu-me uma jovem senhora, na casa dos quarenta, que sangrava daquilo que ela pensava serem umas simples hemorróidas. Depois da cuidadosa história clínica, colhida de uma maneira informal e cordial, logo percebi que aquela jovem senhora, não admitiria outro qualquer diagnóstico. Quando a fui observar, eu próprio estava convencido da sua razão e do seu optimismo. Mas depois da observação e do toque rectal, necessário para o esclarecimento daquela patologia, constatei a gravidade da situação. Acho que a doente percebeu que algo se passava pela minha cara». 

Heine tinha razão: «Enquanto o meu coração estiver cheio de amor e a cabeça do meu próximo cheia de tolice, nunca me há-de faltar assunto para escrever.»    

REDACÇÃO TÉCNICA E ENTREVISTA CLÍNICA
                
Nunca é demais insistir: as coisas grandes têm nomes singelos. Aprender a apreciar a beleza das orações enunciativas simples é, também, uma maneira de evitar as dificuldades gramaticais mais graves. Os princípios básicos em que se assenta a redacção técnica são os mesmos de qualquer tipo de composição (clareza, correcção, coerência, ênfase, objectividade, ordenação lógica, etc.), embora a sua estrutura e o seu estilo apresentem algumas características próprias. Uma coisa é certa: o impacto da mensagem perde-se, quando o destinatário é distraído pela informação que não está presente. Isto tanto na escrita, como na relação paronomástica oral/aural (boca/ouvido).

Ido do Porto, o comboio suburbano «terminou a sua marcha» em Aveiro, donde partiria, dentro de poucos minutos, para aqueloutra cidade. Antes de embarcar, um passageiro procurou tirar-se de dúvidas e dirigiu-se a um funcionário da CP:
- Este comboio vai para trás?
- Não! Os comboios não andam para trás; andam sempre para a frente!

Mas, se não há uma forma unívoca e anódina de comunicação, existem, por certo, maneiras acertadas de atender, de estabelecer contacto. Daí que o êxito da entrevista clínica possa começar já na sala de espera, onde o «público cativo» se acantona num ambiente propício ao queixume mútuo, território limítrofe da mentira. «Nada há nada de mais divertido, diz Dostoïevski, no Jornal dum Escritor, do que falar da sua própria doença, desde que se encontre um auditor. E a partir do momento em que se começou, é impossível não mentir. É uma coisa que serve, ela mesma, de cura ao doente».
Para Yves Winkin, uma visão alargada da comunicação pode ser caracterizada a partir de cinco princípios: a comunicação é um fenómeno social: a intencionalidade não determina a comunicação; a comunicação social deixa-se apreender pela imagem da orquestra; o observador faz parte da orquestra; a participação na comunicação opera-se segundo múltiplas formas, verbais e não verbais, que podem constituir o objecto de abordagens específicas: paralinguística, proxémica, cinésica, háptica. 
Fiquemo-nos pela abordagem háptica, táctil. Lucien Israël diz, a propósito da relação doente-médico: «Por que aberração a Medicina menospreza que pôr a mão no corpo de outrem, gesto que o “acto médico” implica sempre, suscita nesse outrem reacções que não se limitam à materialidade física do homem? A tecnicidade da Medicina reduz o encontro doente-médico, chamado também o “colóquio singular”, a um inventário de perfomances objectivas das funções biológicas essenciais. Mas o doente espera outra coisa do médico. Ele não pode ser indiferente aos sofrimentos do seu corpo, à ameaça que uma doença faz pairar sobre o seu futuro e o do seu meio envolvente. Ele espera do médico que este lhe ensine a viver com e após a doença».
Muitos anos antes desta «psicologia adaptada à Medicina» que, a partir de 1964, foi dando tímidos passos, escrevia Miguel de Unamuno: «Estes estúpidos afectivos com talento costumam dizer que não serve de nada querer penetrar no incognoscível, nem dar coices no aguilhão. É como se se dissesse a uma pessoa a quem tiveram de amputar uma perna, que não lhe servia de nada pensar nisso. E a todos nos falta algo; só que uns sentem-no e outros não. Ou fazem de conta que não o sentem e, então, são uns hipócritas. Um pedante que viu Sólon a chorar a morte de um filho, disse-lhe: “Para que choras assim, se isso de nada serve?” E o sábio respondeu: “Precisamente por isso; porque não serve de nada”».
O lugar e o tempo do «colóquio singular» têm o seu processo osmótico na entrevista clínica, a consulta. Há psicólogos que, não obstante certas diferenças a ter em conta (ambientes, tipos de clientes e natureza dos problemas), afirmam ser impossível estabelecer uma linha de separação, firme e definida, entre a entrevista para adaptação profissional e a entrevista clínica, uma vez que ambas têm como objectivo principal a mudança de atitudes e de comportamento.
Das muitas sugestões para a entrevista clínica, destacarei quatro: que o médico mantenha o equilíbrio e objectividade emocional; que evite o complexo de Jeová; que seja humilde; e que atenda o doente/cliente não «sentado ao balcão», como normal e erradamente faz, por desconhecimento total, que nem todos os doentes terão, da influência do espaço numa comunicação interpessoal. É que, só por si, uma menos bem conseguida forma de atendimento pode ser o princípio do desentendimento. Se a Medicina progrediu, o doente também evoluiu.
O paciente não é um órgão isolado; é, antes do mais, como diz Henri Pequignot, «um ser humano na sua inteireza, que vigia as reacções dos prestadores de cuidados de saúde, os seus silêncios e as suas palavras, procurando, desesperadamente, na angústia da sua doença, a falha que entre aqueles possa ter havido, como a criança encontra facilmente lacunas entre a moral apregoada e a sua moral vivida. O doente que recorre aos cuidados de saúde é, não se duvide, marcado sempre pela experiência que tem de todos aqueles que anteriormente o assistiram». Eis por que decidirá em conformidade.
Na entrevista dada por António Damásio a Sciences Humaines – Agosto/Setembro 2001, este aspecto é particularmente focado: «A ideia principal da minha teoria dos marcadores somáticos é a seguinte: quando um indivíduo tem de tomar uma decisão face a um acontecimento novo, e, portanto, fazer uma escolha entre várias opções, não faz tão-somente uma análise puramente racional. É também ajudado pelas recordações que ele tem de escolhas anteriores e das suas consequências. E essas lembranças contêm componentes afectivos, emocionais, do acontecimento passado.»
No étimo do vocábulo saúde (salus, salutis) não está contido apenas o conceito de bom estado físico. Para os romanos, o sentido do termo era bem mais lato, ao envolver as significações de salvação, conservação, bom estado moral, aperfeiçoamento e, também, de reverência, a qual deve presidir até ao simples acto de pôr a mão no corpo de outrem.
Não seria este o espaço apropriado a uma história infantil, se não tivesse começado por falar do tacto, entendido, ainda, como a sagacidade que deve existir em todo e qualquer acto de comunicação. Só por isso, e ao jeito de apólogo, lembro um breve conto de Andersen, lido na infância e só agora sentido:

Era uma vez um príncipe que pretendia casar com uma princesa que fosse verdadeiramente princesa. Coisa difícil, mesmo para um príncipe, pois não havia meio de aparecer uma princesa da qual se pudesse dizer que era mesmo uma princesa. Até que certa noite, muito tempestuosa, bateram à porta do castelo do príncipe. Era uma jovem que afirmou ser uma princesa. A mãe do príncipe convidou a donzela a pernoitar no castelo. E logo deu ordens para fazerem o leito, a meio do qual colocou um grão de ervilha. Por cima do grão de ervilha mandou pôr 20 colchões e 20 edredons. Na manhã seguinte, a mãe do príncipe perguntou à jovem se tinha dormido bem. Que não, respondeu esta; mal tinha pregado olho, porque havia na cama uma qualquer coisa tão dura, tão incómoda, tão agressiva, que ainda estava com o corpo todo moído. E logo todos reconheceram que a jovem era mesmo uma princesa.

NOTA: Este artigo não foi escrito, por opção do autor, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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