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BREVE EXCURSUS NO MUNDO DA EDUCAÇÃO

DO SÍLEX AO SILÍCIO


Publicado a: 13 Julho 2015

BREVE EXCURSUS NO MUNDO DA EDUCAÇÃO1

A educação, tal como hoje a entendemos, com as suas virtualidades e as suas imperfeições, é um sistema resultante de três milénios de cultura, da cultura que interiorizámos e que, por isso, é a nossa cultura europeia.
Resultante do lento e nem sempre uniforme desenvolvimento milenar das formas educativas chegámos, no começo do século XXI, a uma situação de total desadequação entre as formas de ensino e respectivos planos curriculares e as necessidades de uma sociedade em completa mudança.
O desenvolvimento tecnológico acelerado a que assistimos durante todo o século XX, resultante da introdução sequencial de tecnologias de substituição, sofreu uma hiperaceleração quando começaram a ser desenvolvidas as tecnologias de integração.
Hoje, o mundo envolvente, em todos os seus aspectos, modifica-se a uma velocidade enorme. Caracterizaríamos dinamicamente a situação dizendo que o próprio factor mudança sofre uma aceleração constante.
No relativo ao ensino, de um modo sintético, pode-se afirmar que os seus centros transmitem o conhecimento de ontem, cristalizado em legislação muito mais antiga, quando a sociedade vem exigindo dos seus membros o conhecimento de hoje e o de amanhã.
Quando a evolução do meio envolvente, nos seus diversos aspectos, se fazia à escala das centenas ou, mais recentemente, das dezenas de anos a pressão sobre as estruturas de ensino não era notada. O que não quer dizer que não se dessem modificações e inovações cujos momentos estelares ficaram marcados na história.
A partir da dicotomia entre os padrões gregos da paideia de Esparta e de Atenas, personificados nos heróis homéricos, Aquiles e Ulisses, passando pela educatio romana de base consuetudinária, predominantemente rural, ou pela enkyklios paideia do período helenístico, chegámos a um ensino europeu dependente do jogo de relações entre os poderes fundacionais europeus, regnum, sacerdotium e studium, com base em planos curriculares de muito lenta evolução.
A matriz de ensino grega haveria de transformar-se, na Idade Média, no trivium e no quadrivium que marcaram o ensino na nossa Europa de referência durante séculos. 
O ensino durante a Alta Idade Média concentrou-se nos conventos e mosteiros que, por toda a Europa, dominaram a transmissão de conhecimentos, primeiro com as suas scholæ interior e, depois, por pressão de uma burguesia emergente e desejosa de aprender, acrescentando-lhes as suas scholæ exterior.
É durante a Baixa Idade Média que nasce uma instituição tipicamente europeia: a universidade. Instituição sem antecedentes, universitas no sentido de conjunto de pessoas, mestres e alunos, e não, como por vezes se escreve, no sentido de conhecimento universal registado, produzido e transferido.
A evolução da instituição universitária, desde a sua fundação nos séculos XI e XII, acompanhou a evolução sócio-económica e cultural envolvente. Umas vezes como motora de desenvolvimento e de inovação, outras sendo o paradigma da reacção ao progresso das sociedades.
Mas a universidade é a instituição europeia que teve um percurso mais regular e lógico ao longo dos séculos, sem soluções de continuidade. Empregando um conceito físico, pode-se dizer que é a instituição europeia com maior resiliência. Dos três poderes já referidos é aquele que mantém, na sua linha evolutiva, uma maior uniformidade. O poder político transformou-se completamente, o poder religioso expandiu-se geograficamente mas perdeu o monopólio religioso na Europa e viu diminuída a sua força relativamente ao poder político. O que não quer dizer que tal tenha significado autonomia frente aos outros poderes. Muitas vezes foi exemplo de inércia, de estagnação e de subordinação.
As primeiras correntes humanistas do século XIV vieram refrescar os conteúdos escolares, por demais cristalizados, mas foi só graças a um outro período estelar da história europeia que se deu uma profunda renovação no ensino.  
O século XV foi o período histórico da emergência do humanismo. 1500 é um momento de referência na história europeia. Na sua época ocorreram factos, distintos uns dos outros, que trarão enormes impactos e repercussões sociais e políticas. Bastará referir: a queda de Constantinopla frente aos turcos e o final da Guerra dos Cem Anos em 1453, a chegada de Cristóvão Colombo às Américas, a queda do Reino de Granada e a expulsão dos judeus de Espanha, factos todos ocorridos em 1492, a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama em 1498, a chegada de Álvares Cabral ao Brasil em 1500. Ao mesmo tempo, a imprensa gutenberguiana, de caracteres independentes, combináveis e reutilizáveis, abriu as portas a uma nova fase de expansão do conhecimento humano. Fenómenos de radicalismo político centrípeto, fenómenos de natureza sociológica e estratégica, mudanças técnicas que vão repercutir-se num novo período histórico da Europa. Ainda que, no plano científico, se tenha que esperar quase dois séculos mais por mudanças significativas...
É a partir do século XVII que a forma estrutural da sala de aula, o ensino magistral, se generaliza a todos os níveis do ensino. Os alunos frente ao professor. A escrita predominando sobre a oralidade. Os conteúdos estruturados em disciplinas fechadas sobre si mesmas. Estrutura na altura tida como adequada que haveria, a partir de certo momento, ser elemento contrário ao desenvolvimento de novos saberes e conhecimentos.
Este modelo, seguido do ensino primário até ao universitário, estabeleceu-se paradigmaticamente durante mais de 400 anos, tendo-se ainda mais consolidado no século XIX. Os planos foram enquadrados em disciplinas/horários/salas numa rigidez de ensino presencial que haveria de permanecer durante mais de 100 anos e que ainda hoje é predominante.
A nível universitário, é também no século XIX que se desenham os dois modelos ainda prevalecentes em muitas universidades dos períodos industrial e pós-industrial:

  • a centralização e governamentalização das universidades, sob um modelo designado “napoleónico”, orientadas para uma utilidade social imediata,
  • a fundamental orientação para a investigação pura como objectivo da superior educação do ser humano, inspiradas nos trabalhos de Alexander Von Humboldt (1769-1859) e por isso recebendo a designação de “humboldtianas”.

É a partir deste período que sobressai a distinção entre dois projectos: o bíos theoretikós, valorização do conhecimento científico e humano per se e o bíos practikós, a valorização do conhecimento com prioridade para o seu valor social imediato. Dicotomia que se acentuará em muitos projectos pedagógicos em que se intenta regressar a uma fusão entre o conhecimento das humanidades e das tecnologias.
O século XX será atravessado por uma série de análises de carácter epistemológico quanto à educação. Quanto aos seus grandes objectivos e quanto aos seus métodos. 
A partir do segundo quartel do século XX duas correntes se debateram: a da prevalência do objectivo de criar igualdade de oportunidades na sociedade e a da prevalência da importância da transmissão cultural intergeracional numa perspectiva de optimização, manifestamente classista mas mais dinâmica. Problemática viva nas discussões sobre a escola integrada, relativamente a pessoas com diferentes níveis de funcionalidade, ou sobre as escolas de ensino multicultural. O que introduziu diferentes perspectivas e considerandos sobre a problemática do chamado insucesso escolar: onde localizar a razão do insucesso escolar?
Várias análises confirmaram também notáveis desvios entre o conhecimento real, o saber científico, e o conhecimento escolarmente transferido, o conhecimento escolar. De facto, reconhece-se que, por razões ditas metodológicas, o conhecimento escolar está descontextualizado e deformado pelas necessidades de generalizar, de sintetizar e de simplificar.
Mas, no plano analítico, simultaneamente, novas variáveis envolventes são introduzidas:

  • renovação hiperacelerada do conhecimento humano,
  • desenvolvimento dos conhecimentos sobre os processos neuropsicológicos e cognitivos e consequentes novas perspectivas pedagógicas e metodológicas,
  • utilização da telemática, enquanto tecnologia de integração,
  • globalização da economia com fenómenos de desequilíbrio metastásico por todo o mundo chamado desenvolvido,
  • disseminação da comunicação mediática e crescente influência sobre uma população mediaticamente iletrada,
  • prevalência da comunicação pela imagem frente à comunicação escrita, o que reformula e diversifica a linguagem, lato sensu,
  • sobreposição antitética entre o ensino formal, adquirido nas salas de aula, o ensino não formal, não regulamentado, adquirido hoje, predominantemente, através de meios audiovisuais convencionais ou telemáticos, e ensino informal, aquele conjunto de informação, muitas vezes contraditória, que chega por vias exteriores às do ensino convencional,
  • expansão de uma envolvente reticular que se sobrepõe às envolventes clássicas natural e urbana, que leva a um mundo distal frente a um mundo recintual clássico (Echeverría, Javier, 1999: Los Señores del Aire: Telépolis y el Tercer Entorno).

A conjugação destes factores principais e doutros, secundários, gera uma situação que se pode caracterizar por:

  • desadequação crescente entre o produto do ensino e as necessidades da sociedade,
  • confronto entre a apreensão de conhecimentos pela via escolar e os conhecimentos adquiridos pela via informal,
  • falta de preparação crescente da estrutura escolar, por demasiado condicionada pelos aparelhos, político e burocrático, de estado,
  • curricula inadequados,
  • deficiente ou nula formação pedagógica a nível docente, sobretudo a nível do ensino superior, seja politécnico seja universitário,
  • ausência de estruturas que não facilitam o shifting para um ensino/formação ao longo da vida (lifelong learning/training ),
  • predominância da valorização do ensino presencial versus ensino distal.

Tal situação conduz a que seja necessário encarar modificações estruturais estratégicas que poderíamos enunciar, de modo não exaustivo, em: 

  • criação de estruturas que correspondam às necessidades de formação ao longo da vida,
  • elaboração de curricula não estruturados convencionalmente em disciplinas (ou, hoje, no ensino superior, unidades curriculares) mas em módulos que não conduzam mais a um ensino fragmentado e compartimentado mas antes façam realçar a realidade multifacetada da vida, de que a introdução, nalguns países, das disciplinas transversais que, sem romper ainda o esquema convencional, leva a reconhecer as múltiplas pontes do conhecimento,
  • articulação de saberes,
  • aceitação dos princípios do pensamento global e da complexidade do conhecimento (Edgar Morin),
  • estabelecimento de pontes entre a cultura humanística e a cultura científica,
  • reconhecimento e consequente utilização na prática da teoria das inteligências múltiplas (Howard Gardner),
  • definição de formas adequadas de avaliação contínua ex-ante, in itinere e ex-post dos processos educativos e certificação dinâmica do curriculum de cada indivíduo.

O que exige, a curto prazo, uma renovação dos estudos sobre ensino-aprendizagem tendo consciência de que o processo é hiperdinâmico.
Não se poderão desenvolver nem aceitar curricula estáticos, que sejam definidos em dois ou três anos e analisados pelo aparelho burocrático de estado noutros tantos... Quando estiveram prontos para a sua aplicação prática estarão irremediavelmente ultrapassados.
Haverá sim que criar estruturas permanentes de análise matricial multidisciplinar que continuamente façam um confronto entre as necessidades profissionais e os planos curriculares.
Haverá, sobretudo, que, numa perspectiva construtivista, reorientar o ensino para:

  • prioridade do aprender a pensar e a pesquisar sobre a própria aquisição de conhecimentos de modo enciclopédico e não interligado,
  • reestruturação do ensino deixando que os processos cognitivos dos alunos se desenvolvam fora das normas do recitatio (que, infelizmente, não se fica, hoje em dia, só localizado nas madrasas corânicas em que se recita até à exaustão as 144 suras do Corão e os Hadit) em que a memorização é tida como prevalecente,
  • desenvolvimento da literacia telemática como condição sine qua non no domínio propedêutico da nova educação,
  • organização de formas de aprendizagem ao longo da vida que conduzam ao learning while doing, reduzindo os tempos de inactividade e aumentando o reconhecimento da função operativa,
  • desenvolvimento dos processos de auto-formação suportados telematicamente e dos sistemas de e-learning/training que rompem hoje com a reduzida valorização dos processos de educação e formação distais,
  • reforço das estruturas pedagógicas em simultâneo com as estruturas tecnológicas.

Em resumo:

  • centrar cada vez mais o ensino no aluno, como indivíduo, e não nos professores, nos conteúdos ou nos meios,
  • flexibilizar todo o processo educativo sem perda de qualidade.

Tarefas difíceis? Sem qualquer dúvida. Mas fundamentais para que, de um modo aparentemente contraditório, se não entre, no campo educativo, num novo período de obscurantismo tecnológico.
Os Estados têm que assumir estruturas de regulação e de acreditação das várias estruturas de ensino mas, para que não sejam puros obstáculos ao desenvolvimento das novas formas de educação, terão que ser preparadas para entender o mundo em movimento acelerado em que se movem. 
Conseguir que tanto o aparelho de estado politico como o aparelho de estado burocrático se empenhem neste caminho.

1“...ont pourrait baptiser noolithique la période qui s’ouvre aujourd’hui. Ce néologisme est formé à partir de la racine grecque [nous], esprit, et [lithos], pierre, la pierre du savoir n’étant évidemment plus le silex de la préhistoire mais le silicium des semi-conducteurs et des fibres optiques.”
Pierre Lévy et Michel Authier: Les arbres de connaissances​

 

  • Por:

  • Armando Teixeira Carneiro

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