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Por Salvato Trigo

Homenagem a Ruy de Carvalho


Publicado a: 1 Março 2016
Ruy de Carvalho (foto RTP)

Hoje, dia 01 de março de 2016, Ruy de Carvalho celebra 89 anos. Em 24 de fevereiro de 2007, homenageámos o ator com a Medalha de Prata deste Instituto.

Salvato Trigo, fundador do ISCIA e Reitor da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, deixou, nesse dia, o discurso que agora recordamos.

 

1. Ler o curriculum vitae de Ruy de Carvalho foi para mim, será para todos nós, fazer uma viagem de memória pela história do teatro português e também por alguns dos nomes maiores do teatro europeu moderno e contemporâneo.

2. A arte de representar deste nosso actor evidenciou, nos seus sessenta e cinco anos no teatro, dos quais 60 como profissional, evidenciou, repito, uma versatilidade técnica que lhe permitiu figurar (na acepção etimológica do conceito) textos tão teatralmente diversos como os de Gil Vicente, de António José da Silva, de Garrett, de Miguel Torga, de José Cardoso Pires ou de Natália Correia, para referir apenas alguns dos mais sonantes dos nossos dramaturgos; ou de Shakespeare, de Brecht, de Roger Ferdinand, de Priestley ou de Peter Shaffer.

3. Essa versatilidade, essencial para um verdadeiro figurão, no sentido genuíno e primevo daquele que é capaz de se outrar, compondo figuras ou esquemas (como se dizia em grego), fruto daquele engenho e daquela arte, de que falava Camões na invocação às musas tágides, moldou a marca cénica que permitiu a Ruy de Carvalho representar no palco do teatro ou no celulóide do cinema ou no registo magnetoscópico do vídeo, personagens cómicas, dramáticas ou trágicas com a mesma grandeza e eloquência duma alma cuja multiplicação platónica de mimesis começou na adolescência dos seus 15 anos com o “Jogo para o Natal de Cristo”, encenado pelo saudoso Ribeirinho.

4. Essa personificação múltipla ou essa capacidade para se tornar noutra pessoa, fosse ela um tipo social discursivamente transposto para a cena ou uma construção ideal e, portanto, um mito, sustenta em Ruy de Carvalho a sua dimensão de poeta (na acepção grega do poíetes e do Vates, do possuído) como autêntico fingidor que Fernando Pessoa melhor de que ninguém compreendeu.

5. Mas um fingidor que se despersonaliza do seu eu para viver um tu, um outro, tornado real pela opsis que o autor lhe empresta. Como poderei traduzir melhor esses muitos que, com fingimento verdadeiro, Ruy de Carvalho artisticamente viveu, senão com a analogia pessoana da heteronímia, porque o nosso homenageado foi capaz de fazer das muitas personagens que figurou seus heterónimos.

6. E essa heteronímia que gerava com naturalidade no palco, espaço seu apodo, tal é a comunhão sua com ele, também foi capaz de a viver nas novelas televisivas portuguesas em que se nos mostrou tão senhor (tantum seniorem) quanto em filmes que nos ficaram na retina como “O cerco” (1969) ou “Non ou a Vã Glória de Mandar” (1990) ou o fabuloso desempenho em ”Quinto Império”, do grande Manoel de Oliveira, ou “O Crime do Padre Amaro”.

7. Ruy de Carvalho não pode, por tudo isto e pelo muito que fica por lhes dizer, deixar de ter também um papel principal na história do teatro português, visto pelo lado daqueles que transformam o silêncio da escrita em vida cénica.

Lamentavelmente, não lhe foi dado esse papel, que é legitimamente seu, na obra de Luís Francisco Rebello - História do Teatro (1991) - que o remeteu para um asterisco de rodapé, na p. 99, ainda que ao lado de outros nomes maiores da nossa galeria de actores. Lamentável e injusto!

8. É verdade que a nossa contemporaneidade não sublima, como devia, o teatro, se a compararmos com a natureza que já na nossa Idade Média lhe era devida e devidamente reconhecida por alguns dos nossos monarcas, o primeiro dos quais terá sido D. Sancho I que, em 1193, fez doação de terras ao jogral Bonamis e a sua irmã Acompaniado, de Poiares do Douro, para os compensar de um “arremedilho” que fizeram na corte.

9. “Arremedar” foi, como disse Teófilo Braga, a “célula - mãe do teatro português” e, por isso, arremendadores ou remendadores se chamava aos jograis especialistas em imitação. Esta tradição do “arremedilho”, de “arremedar”, floresceu até ao final do séc. XIV, estando, de facto, os nossos cancioneiros da época (Ajuda, Vaticana e Biblioteca Nacional) repletos de textos dessa natureza.

10. “Arremedar” é arcaísmo que raríssimos aldeões entre nós persistem em usar, emprestando à palavra um saber e um sabor que transportam o eco duma lusitanidade cada vez menos culturada, sinal destes tempos de permanente palimpsesto, apagando-nos culturalmente e reescrevendo-nos alienadamente, para representarmos papéis de desfiguradas criaturas ignorantes do passado e, por isso, errantes no presente sem direcção clara para o futuro.

11. Para o Senhor, actor Ruy de Carvalho, herdeiro feliz dessa tradição de arremedadores que, pelo afinco e honestidade do seu trabalho e pela eloquência maior da sua teknè e da sua physis, transformou, qual alquimista, o “arremedilho”, de simples imitação em superior figuração e fingimento, em verdadeira opsis, não temos hoje reguengos ou terras régias para o recompensar pelo enriquecimento que trouxe à nossa cultura teatral, às nossas artes cénicas, apenas temos simbolizada, na prata da medalha que o ISCIA em boa hora decidiu atribui-lhe, a nossa gratidão imensa pela universalidade da sua arte portuguesa de representar!

12. Por compreender como pessoa e ter vivido como actor essa nossa dimensão do português que, como dizia Fernando Pessoa, é um e todos ao mesmo tempo!

13. Bem haja pela sua arte, mas também pela sua cidadania responsável, esclarecida e empenhada, exemplo que aos mais cépticos minimizará a dúvida de se valerá a pena continuar a acreditar num Portugal culto e democrático que nos impele para um futuro diferente e melhor!

14. Eu sei, grande actor, que também o Senhor entoa muitas vezes a evocação pessoana do nosso visionário Infante D. Henrique criador do “Mar Português”: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!”.

15. Esta medalha, actor Ruy de Carvalho, é a nossa condecoração para a sua alma grande que queremos que esse corpo quase octogenário conserve até à eternidade, entregando-a exemplar às gerações de actores que hão-de continuar a honrá-lo na cena lusitana, por onde o senhor escreveu brilhantemente a sua biografia, merecedora, bem o sei, de mais louvores do que aqueles que aqui lhe deixo, que aqui vos deixo, apoucados de adjectivos mas, creiam-me, substantivamente muito sinceros!

16. Que Deus o guarde e conserve por muitos anos nessa sua indesmentível qualidade humana e ímpar qualidade artística!

Muito Obrigado!

Salvato Trigo


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