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Entre a cortina e a vidraça

Jucunda AGUSTINA


Publicado a: 27 Abril 2015

O Senhor nos livre dos pensamentos bons,
eles arrastam os outros.
Agustina Bessa-Luís, Eugénia e Silvina

Em 1989, ano da publicação de Eugénia e Silvina, a nossa “parceria” havia 22 meses tinha sido desfeita. Na distribuição dos lucros e perdas, saí eu a ganhar: a Senhora D. Agustina ofereceu-me o romance «como prenda de Natal e lembrança das nossas epopeias de jornais.» Foram duas, essas epopeias mais tétricas que homéricas. Chamar-lhes-ia alhadas. Na primeira, nem chegámos a partir; na outra, não nos deixaram chegar!

A primeira epopeia aconteceu vai para 45 anos. A Senhora D. Agustina fora convidada a assumir um projecto jornalístico; perguntou-me se a acompanharia na aventura. Dias depois, novo telefonema, para me informar que acabara por declinar do convite. E por uma razão de peso a mais: Marcelo Caetano e o banqueiro Queirós Pereira tinham-na esclarecido de que os 50 contos de ordenado iriam ter a casa, não necessitando a Senhora D. Agustina de se preocupar sequer em ir ao jornal. Era pedir pêras ao olmo! Como escreveria mais tarde, «a bom leitor meia palavra não basta». À época, eu ganhava 8.400$00, como secretário de Redacção do JN. O equivalente, mais ou menos, aos 1.500 euros de hoje; os 50 contos andariam pelos 9.000 euros!

A segunda epopeia deu-se há 28 anos. Dessa vez, et pour cause, a Senhora D. Agustina fez-me o convite para director-adjunto de «O Primeiro do Janeiro» através da Administração do jornal. Cinco meses depois, moral e capital voltavam a conflituar. No mesmo sufixo al, que sensibilidades em tudo opostas! A ganância levara os patrões a uma contrafacção editorial; a constância impôs-nos a renúncia aos cargos. As chagas do capital acabam sempre por requerer a boa saúde da moral.

Isso aconteceu em 1987, ano da publicação de A Corte do Norte, romance que a Senhora D. Agustina me ofereceu, com esta dedicatória: «Para Costa Carvalho, meu caro amigo, ofereço este livro como baliza duma equipa de trabalho que espero se desenvolva com felicidade por muito tempo.»

Pouquíssimo foi o tempo; muitíssima a felicidade de ter trabalhado com uma Senhora Directora que exerceu o comando sem nunca recorrer ao mando; com uma Senhora Directora que jamais puxou dos galões ou os levou para o jornal, sempre disponível que estava para deitar a mão, nos momentos de aperto, divertindo-se, até, com o meu atrevimento de lhe atirar para cima da secretária com os despachos das agências noticiosas ou com os “hospitais” e os casos de polícia. Modesta, a Senhora D. Agustina chamava a si o que muito jornalista empertigado rejeitava!

Enfim, uma personalidade cativante também na sensibilidade, na delicadeza, na lealdade, na confiança depositada em mim, na jovialidade, no encarecimento. Sempre que a informava do que ia ser o jornal do outro dia, a Senhora D. Agustina quase que levava a mal a minha obrigação: «Mas, o senhor é que sabe de jornais! Não se preocupe, está tudo bem, de certeza absoluta! E eu até tenho um bom indicador: a minha mãe. Ainda há dias me dizia que, agora, o jornal tem que ler.» O sorriso dos olhos não mentia!

Confesso que tenho boa memória dessas duas epopeias, embora ambas malogradas. Sobretudo, uma lembrança permanente do contacto diário com a Senhora D. Agustina Bessa-Luís, do seu contagiante jeito de rir até às lágrimas, copiosíssimas. Nunca conheci outra pessoa que, tão saudável e inteligentemente, se risse, às bandeiras despregadas, do seu próprio riso! Um riso dirigido à inteligência pura – diria Bergson.

NOTA: Este artigo não foi escrito, por opção do autor, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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